Mximas, Pensamentos e Reflexes
do
Marqus de Maric
Introduo
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H
H alguma contradio em desprezar os homens, e ambicionar a sua aprovao. [1239]
H benefcios conferidos com tal rudeza e grosseria que de algum modo justificam os beneficiados da sua ingratido. [245]
H certos passatempos e prazeres ilcitos, que censuramos nos outros, mais por inveja do que por virtude. [678]
H crimes felizes que so reputados hericos e gloriosos. [34]
H desenganos tardios que chegam j sem proveito e para nosso maior tormento. [1827]
H economias ruinosas, como prodigalidades proveitosas. [1624]
H em ns duas individualidades, uma corporal, e outra intelectual; esta se distingue amplamente daquela, quando sonhamos dormindo: este dualismo foi reconhecido em todos os tempos pelo gnero humano. [2950]
H em ns uma substncia imortal e indestrutvel, ela constitui o fundo essencial de toda a fbrica fenomenal dos nossos corpos. [2974]
H empregos em que mais fcil ser homem de bem, que parec-lo ou faz-lo crer. [49]
H enganos que nos deleitam, como desenganos que nos afligem. [223]
H fanfarres de cincia como os h de valor e nobreza. [1822]
H grandes bens que, para serem durveis, devem ser precedidos de graves males. [1967]
H grandes verdades que avistamos de longe, e que; desaparecem quando as queremos reconhecer de perto. [2126]
H homens cuja atividade semelhante dos bugios, incessante, destrutiva e turbulenta. [532]
H homens dignamente reputados extravagantes, que blasonam todavia de ser singularesnas suas opinies e teorias. [1489]
H homens para nada, muitos para pouco, alguns para muito, nenhum para tudo. [799]
H homens que afetam de muito ocupados, para que os creiam de muito prstimo. [657]
H homens que de repente crescem, e avultam, como os cogumelos, pela corrupo. [708]
H homens que hoje crem pouco ou nada, porque j creram muito e demasiado. [436]
H homens que obram por muitos, e alguns que pensam por todos. [945]
H homens que parecem grandes no horizonte da vida privada, e pequenos no meridiano da vida pblica. [51]
H homens que so de todos os partidos, contanto que lucrem alguma cousa em cada um deles. [1554]
H homens que se tornam importunos, desejando laboriosamente parecer corteses. [722]
H homens que sobem alto, como os papagaios de papel, impelidos pela virao da fortuna e circunstncias. [1574]
H homens que, descontentes de uma insignificncia honesta, se arrojam a intrigas e crimes para alcanar uma celebridade infame. [1071]
H homens to insignificantes que ningum os ama nem aborrece, quando muito so desprezados. [497]
H homens to loucos ou nscios, que qualificam de progresso a libertinagem e desmoralizao nos povos e pessoas. [1641]
H homens to mal reputados, que desacreditam aos que elogiam, e honram aos que vituperam. [1870]
H homens to vaidosos da sua cincia, que presumem que os outros no podem ignorar menos nem saber mais do que eles. [679]
H homens-insetos destinados a pungir, importunar e incomodar os outros homens. [2111]
H ignorantes com muito juzo, e doutores sem muito nem pouco. [236]
H impostores em literatura como em poltica e religio: superficiais e interesseiros tm em vista somente os empregos e promoes que esperam conseguir alardeando de literatos. [2635]
H mais homens de juzo do que se pensa, acham-se ordinariamente nas classes mdias e inferiores da sociedade. [503]
H males na vida humana que so preservativos de outros maiores, e muitas vezes ocasionam bens incalculveis. [395]
H mentiras que so enobrecidas e autorizadas pela civilidade. [774]
H mistrios profundssimos na Natureza, que no dado aos homens penetrar e compreender; se isso lhes fosse possvel, deixariam de ser tais, e se tornariam entes de diversa natureza. [2744]
H morte e destruio neste mundo para que haja sempre vida, formao e renovao com variedade e novidade. [2863]
H muita gente a quem o sol, o frio, a calma ou as bebidas podem fazer corar as faces, porm nunca a vergonha. [619]
H muita gente boa e feliz, porque no tem suficiente liberdade para se fazer m e desgraada. [791]
H muita gente feliz sem saber que o , ou que se considera desgraada por no conhecer ou no haver experimentado os numerosos males da vida humana, contrastes indispensveis para uma exala avaliao dos inumerveis bens da mesma vida. [2772]
H muita gente infeliz por no saber tolerar com resignao a sua prpria insignificncia. [850]
H muita gente m por conta dos outros, e no por sua prpria. [1884]
H muita gente para quem o receio dos males futuros mais tormentoso que o sofrimento dos males presentes. [649]
H muita gente que se considera infeliz em no alcanar o que a fizera realmente desgraada se chegasse a conseguir. [1305]
H muita gente que se queixa, como outra se ri, por hbito e costume. [1061]
H muita gente que tem por ofcio arriscar a sua vida para a manter e conservar. [301]
H muita gente que, como as abelhas, presumem trabalhar para si, quando o produto do seu trabalho para os outros. [2501]
H muitas cousas que os nscios presumem saber, e que os sbios confessam ingenuamente que ignoram. [2604]
H muitas ocasies em que a mesma prudncia recomenda o aventurar-nos. [265]
H muitas ocasies em que os ricos e poderosos invejam a condio dos pobres e insignificantes. [379]
H muitas ocasies na vida em que invejamos a irracionalidade dos outros animais. [71]
H muitos homens que parecem dignos de grandes empregos enquanto os no ocupam. [1622]
H muitos homens que receiam ser desenganados pelo desgosto de parecerem crdulos ou tolos. [518]
H muitos homens que se queixam da ingratido humana para se inculcarem benfeitores infelizes, ou se dispensarem de ser benfazentes e caridosos. [6]
H muitos homens que, assim como o sol, parecem maiores no horizonte que no seu znite ou meridiano. [335]
H muitos homens que, para escaparem de si mesmos, importunam aos outros com visitas. [98]
H muitos homens reputados infelizes na nossa opinio, que todavia so felizes a seu modo, e segundo as suas idias. [713]
H na ventura uma expanso ou dissipao que nos enerva e debilita, como na desgraa uma certa concentrao que nos alenta e fortalece: na primeira pertencemos ao mundo externo, na segunda a ns mesmos solidariamente. [2171]
H nas famlias, povos e naes do mundo as mesmas vicissitudes e variaes como na atmosfera que circunda a terra, onde tudo tende a equilibrar-se sem que possa verificar-se um perfeito equilbrio e permanente harmonia. [2602]
H neste mundo uma ao e reao em tudo, que constituem a ordem, e determinam a conservao e perpetuidade do mesmo mundo. [3036]
H numerosos oradores com melhores pulmes do que miolos. [1859]
H opinies que nascem e morrem como as folhas das rvores, outras porm que tm a durao dos mrmores e do mundo. [455]
H opinies que, assim como as modas, parecem bem por algum tempo. [547]
H pases em que a fertilidade material da terra emenda os erros de entendimento do pessoal dos povos. [1190]
H pases em que os homens so avaliados como os papagaios; os que falam mais tm maior preo e estimao. [1791]
H para a sociedade uma harmonia na loucura variada dos homens, como para a msica vocal e instrumental na diversidade e antagonismo dos sons e vozes. [2865]
H pessoas moralmente sbias a seu pesar: as terrveis lies de uma experincia dolorosa as fizeram tais. [711]
H pessoas que dizem mal de tudo para inculcar que prestam para muito. [762]
H pessoas que ganham muito em ser lids, e perdem tudo em ser tratadas: escrevem com estudo e vivem sem ele. [731]
H pessoas que no podem elevar-se a lugares eminentes sem entontecer ou desatinar. [96]
H pessoas que, assim como as modas, parecem bem por algum tempo. [777]
H pessoas to malignas, que sentem mais o bem alheio que os prprios males. [744]
H povos que so felizes em no ter mais que um s tirano. [416]
H prazeres privativos de cada idade, e outros comuns para todas. [2814]
H progresso de inteligncia nos povos onde a inveno das modas freqente ou habitual. [2897]
H rasgos de virtudes que provocam lgrimas de admirao; esta tanto maior, quanto supomos maiores os esforos, e sacrifcios que custaram s pessoas que os produziram. [714]
H sempre em uma famlia algum que incomoda o chefe dela e lhe apura a pacincia. [2970]
H sempre entre os homens uma sabedoria da moda, como um penteado, um calado ou um vesturio. [365]
H servios to subidos que s a admirao ou a glria os pode recompensar. [903]
H tambm nas democracias um trono: a anarquia o ocupa freqentes vezes. [1900]
H tempos calamitosos em que o maior tormento da velhice tolerar a mocidade. [1356]
H tempos e circunstncias em que prova de habilidade parecer e figurar de inbil. [1092]
H tolos malignos que fazem mais dano e males que os velhacos consumados. [1800]
H um doce-amargo nas saudades que deleita e contrista; este sentimento misto de prazer e dor nos encanta e penaliza ao mesmo tempo. [918]
H um limite nas dores e mgoas que termina a nossa vida, ou melhora a nossa sorte. [923]
H um mundo intelectual que no ocupa lugar no espao e compreende o infinito. [285]
H um orgulho nobre e majestoso que descobre os heris, os sbios e os homens justos. [2124]
H uma bondade imbecil que se confunde muitas vezes com o idiotismo. [2083]
H uma douta ignorncia que mais funesta aos povos do que a ignorncia iliterata. [2102]
H uma facndia arrojada e semidouta que muita gente nscia qualifica de sabedoria. [1082]
H uma felicidade positiva, que consiste em gozar; e outra negativa, em no sofrer. [2713]
H uma idolatria profana, como outra religiosa; tem por objeto os homens e suas obras. [2872]
H uma ignorncia universal que presume saber o que ignora, e explicar o que no compreende, e que se ufana do seu imprio sobre o entendimento e razo humana. [2747]
H uma iluso muito vantajosa espcie humana, a esperana individual de uma longa vida. [2461]
H uma soma de bens e males que se correspondem respectivamente e se tornam necessrios para a renovao, conservao e perpetuidade deste mundo sublunar. [2514]
H uma trindade de atributos essenciais na Divindade, infinita sabedoria, infinito poder e infinita bondade: a sabedoria concebe, o poder executa, a bondade vivifica e felicita. [2984]
H unspretendidos sbios modernos de singular natureza, nada afirmam, negam tudo, e se apelidam progressivos. [409]
H velhacos por grosso e por mido, assim como h pessoas que comerciam em grande e pequena escala. [983]
H velhos monstruosos que renem os vcios, paixes e desvarios da mocidade com os da velhice, e requintam em todos eles. [2098]
H verdades que conhecemos, muitas que pressentimos, inumerveis que no podemos conhecer nem pressentir. [1107]
H verdades que mais perigoso publicar do que foi difcil descobrir. [884]
H verdades que, assim como as frutas, so verdes e travam antes de amadurecerem. [1559]
H vcios contrrios e opostos, mas no virtudes adversas e incompatveis. [1042]
Haver a maior soma de bens com o menor trabalho e dispndio possvel, eis o grande problema que cada indivduo procura resolver em seu favor no decurso da prpria vida. [388]
Homem palavroso e facundo no seguro no seu trato. [1329]
Homem que diz mal de tudo e de todos para nada presta. [1777]
Homens h como as serpentes que envenenam aqueles a quem mordem. [1711]
Homens h de muita valia, mas que no podem ser avaliados: so os sbios. [2490]
Homens h que parecem condenados condio de animais de carga, vivem s para trabalhar, e morrem para que outros gozem. [1020]
Homens h que parecem fadados a trabalhar incansavelmente para se fazerem desgraados. [2154]
Homens h que s brilham entre os nscios, como os pirilampos nas trevas. [1688]
Homens h que tm trabalhado incansavelmente para se fazerem incrdulos sobre as crenas religiosas do seu pas e nao, e que reconhecem finalmente que lhes fora muito melhor uma credulidade passiva do que um desengano inane e negativo, ou uma incerteza importuna, vaga e tormentosa. em semelhantes matrias que se pode dizer ser mais conveniente errar com muitos, que acertar com poucos. [3053]
Homens h que tm uma celebridade efmera como a das modas: figuram e desaparecem em pouco tempo. [2168]
Homens h que valem muito mais que a sua reputao; o seu silncio, retiro, modstia e reserva no deixam distinguir toda a extenso do seu merecimento, saber e virtudes. [2013]
Homens h, como as obras de casquinha, que s tm a sua superfcie de metal nobre. [2822]
Homens! aprendei a vencer-vos e triunfareis de todos. [2157]
Humilhai o vosso amor-prprio, mas respeitai o dos outros. [1517]